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Andando chego em mim

28 June 2010 16 comentários

Andando chego em mim – I

Enquanto ando pelas ruas da cidade que carrego, levo a dor, o riso. A vontade de arrebentar o muro e beber da água do rio.
Enquanto ando caminhos esquinas travessas vielas, os semáforos em outono piscante revelam que estou só, já é noite em mim.
Enquanto ando onde a sombra se faz prece, atravesso frestas e dobras e dramas e draconianos dragões, bichos-de-sete-cabeças na minha.
Enquanto ando pelas calçadas da cidade baixa de encontros tardios, perco meu olhar nas lonjuras da boca a falar a língua do fogo, me afogo.
Enquanto ando esqueço o sonho de voar… voando dentro de mim.
Enquanto ando descubro as rugas do chão e cicatrizes do asfalto, as pegadas do tempo. Vejo a pressa pregada nos rostos no desencontro de si.
Enquanto ando lembro dos livros que nunca lerei, dos tenros corpos que não se deitarão ao meu lado, dos bares que ficarão ausentes de mim.

Andando chego em mim – II

Enquanto ando alguém pede o fogo, fala da lua, do cosmos, do homem a filosofiar teias, a desfiar despropósitos e a desafiar a ausência.
Enquanto piso, peso minha loucura em pratos desiguais, reluto em vestir preto na solenidade dos zumbis, eles obedecem, eu não agrado.
Enquanto passo, vejo lama, tédio, neve na cabeça, rugas na pedra, penúria nas ruas, bebo do rosto a água turva de meus olhos, outro passo.
Enquanto ando vejo corpos que passam na calçada virando a cara para corpos nas esquinas que observam outros corpos caídos no asfalto.
Enquanto ganho a rua e respiro o ar pesado do insano vômito dos canos de descarga, tento ser livre do jugo da pressa, penso que sou, mas não.
Enquanto sigo caminhos da cidade, artérias que pulsam, veias que rasgam, pulso bate em soluços sem absoluta solução. Só a obrigação da luta.
Enquanto ando suponho que ninguém me vê, pois os olhos pintam em verde, amarelo e vermelho. Máquinas paradas na margem, descoloridas.
Enquanto ando a mão diz pare. Obedecer é dever cínico. Agora o homem diz ande. Andar é arte cênica da vontade.

Andando chego em mim – III

Enquanto ando olho pela fenda do olho a ofensa cotidiana e a pretensa nobreza dos pavões de rabos tortos e cinzas. Acéfalos quase todos.
Enquanto prossigo nesta senda que traço, refaço todas as armadilhas, apago os cigarros na tez do asfalto, anoiteço em brasa.
Enquanto gingo malemolente, cansado de ouvir a monotonia do tráfego, a pasmaceira dos telhados a esperar a chuva, mudo, sigo, aqui dentro.
Enquanto vou, vejo que ela chega, assim chegando. Chama, assim queimando sua vinda. Seja bem, digo distante. Minha voz em letras desaparece.
Enquanto ando invertido, nesta terra de caranguejos, escuto a criação de expectativas, para logo depois ser negada. Cai mais uma ilusão.
Enquanto passo, ao largo daquele lugar onde as moedas viram pó nas narinas dos quadrilheiros da usura, sangro na sarjeta dos desgraçados.
Enquanto vago vesgo no meio dos que muito protestam e nada ganham, e daqueles que tudo recebem sem protestar, o corteja segue meu olhar.
Enquanto teço quero andar solto como a ventania, embaralhar os papéis, ver a surpresa das saias, o susto das pétalas e das folhas no chão.

Denison Mendes, 39 anos, jornalista em formação antropossociológica e política. Um indivíduo do seleto grupo dos comuns em meio a celebridades de raridades instantâneas. De uma cosmoprovíncia, a pintar em português.

Contato: denisonmendes@hotmail.com

Blog: Bahrboleta

Twitter: @denisonmendes

16 comentários »

  • Rita Schultz disse:

    Oi, Denison,

    o masculino também desenha fases de andar em si mesmo e no outro, que o completa: ‘a surpresa das saias, o susto das pétalas e das folhas no chão.’
    Beijo, querido.

  • Tweets that mention Sandra Cajado Arte & Cultura » Arquivo » Andando chego em mim -- Topsy.com disse:

    [...] This post was mentioned on Twitter by Suzana Martins, Tatiana Kielberman, Denison Mendes, Tatiana Kielberman, Tatiana Kielberman and others. Tatiana Kielberman said: "Andando chego em mim", por @denisonmendes no #sandracajadoaec: http://migre.me/SQdA [...]

  • Sandra (author) disse:

    Querido Denison Mendes

    Enquanto vago vesgo no meio dos que muito protestam e nada ganham, e daqueles que tudo recebem sem protestar, o corteja segue meu olhar.

    Diante de tão belas palavras,descanso meu coração e recebo cada palavra sua de reflexão e aprendizado.

    O silêncio paira no ar,mas a lição entra como flexa.

    Como eu gostaria de ter escrito tal palavras.

    Obrigada sempre por nos presentear com seu dom poético.

    O A&C é a sua casa.

    Beijos no coração.

    Sandra Cajado

  • Rafa disse:

    Que texto…

    Emoções vividas e lidas em partes I,II e III (Perfeito)

    A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros nesta vida
    Vinícius de Moraes

    No final sabemos que um dos melhores encontros é conosco mesmo.

    Parabéns.

    Rafa Cajado

  • César disse:

    Bem-vindo Denison :-)

    adorei o seu texto, carregado de momentos vividos e sentidos com toda a Alma, fez-me lembrar as minhas caminhadas diárias a pé do trabalho até casa, onde sou só eu, o barulho do trânsito e os meus pensamentos :-) !

    sucesso para você e obrigado por dividir connnosco esta viagem intensa :-) !

    Abraço

  • DJ Mynno disse:

    Ola Denilsom!!

    Nunca antes na história desse portal um DJ ficou tanto tempo de boca aberta lendo um post e por 3 vezes ficou admirando palavras…

    Que palavras usar aqui para definir tudo isso que acabei de ler, procurei, procurei e não as encontrei ainda o fato é que você nos deu hoje uma lição de vida…

    Abraços DJ Mynno

  • Su disse:

    Andar e encontrar versos em esquinas de confusões, andar e encontrar contos nas pontes de solidões… Andar, encontrar, versar, desenhar frases de si em si!!

    Lindo demais!!

    Parabéns!!^^

  • Enluarada disse:

    Estou com o DJ Mynno, de boca aberta e babando…se existe uma pessoa que me deixa admirada ao desenhar as palavras, jogando com o som e a fonética delas e ao mesmo tempo dando um profundo sentido ao texto – eis aí – o Sr. Denison Mendes.

    Caramba, to arrepiada aqui! Destaquei entre as frases:

    “Enquanto ando a mão diz pare. Obedecer é dever cínico. Agora o homem diz ande. Andar é arte cênica da vontade.”

    “Enquanto ando olho pela fenda do olho a ofensa cotidiana e a pretensa nobreza dos pavões de rabos tortos e cinzas. Acéfalos quase todos.”

    Me fez refletir até que ponto o que fazemos na vida vem realmente de nosso coração, e até que ponto vale a pena viver em função da vontade alheia. “acéfalos quase todos”…porque a muitos, falta a capacidade de raciocinar com boa vontade e amar com intensidade.

    Parabéns!!

    Beijos de sua fã!!….\o/

  • Taty disse:

    Denison, sua escrita é fantástica e seu talento é visivelmente INCRÍVEL!

    Você tem o dom da construção com as palavras – nunca desperdice isso, viu?

    Amei!

    “Enquanto teço quero andar solto como a ventania, embaralhar os papéis, ver a surpresa das saias, o susto das pétalas e das folhas no chão.”

    Esse é meu lema!

    Um beijo pra você!

  • Tatiana Lanetzki disse:

    Denison

    Mal posso dizer o que estou sentindo. Pois não haveria beleza nestas palavras. Mas, conseguiu transformar lindamente por suas mãos os
    sentimentos aqui descritos.

    Muito bom tudo isso!!!!

    Parabéns!

    Abraços

  • Hélia disse:

    Querido Denison…

    E nesse caminhar, que começa pelo amplo, pelo externo, sua maestria em conduzir as palavras vai nos levando cada vez mais para o interno, para uma vastidão de sentimentos e sensações…

    Seu talento é admirável…

    Seus textos encantam!

    Te acompanho aqui e ali…

    Beijos e parabéns!!

  • Patrícia Garcia disse:

    Denison,

    Muito bom, texto emocionante.

    Parabéns!

    Beijos

  • Jéssica disse:

    Lindo demais…PERFEITO!

    Parabéns Denison Mendes

  • Lua Nova disse:

    “Enquanto ando esqueço o sonho de voar… voando dentro de mim.
    Enquanto ando descubro as rugas do chão e cicatrizes do asfalto, as pegadas do tempo. Vejo a pressa pregada nos rostos no desencontro de si.”

    Seu texto é envolvente, gostoso de ler, prende a atenção e o jogo de palavras é estimulante.
    Parabéns.
    Beijos.

  • cátia disse:

    É Denison…enquanto fazemos, andamos, respiramos, cuidamos, enquanto…
    um universo de coisas acontecem dentro de nós e fora..
    Enquanto amamos alguém este alguém ama alguém e a vida é assim, nos ligamos por redes e fios, temos dores e pavores…mas enquanto isso outras coisas acontecem..
    Parabéns!
    biejos

  • Denison Mendes disse:

    gente, grato pelos belos e generosos comentários.
    abreijos,
    denison

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