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Vida longa ao poeta: Ferreira Gullar, 80 anos de vida e 63 de poesia

9 September 2010 13 comentários

Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens

Ferreira Gullar

Hoje a nossa coluna está em festa e zabumbaremos nossos tambores para reunir a taba timbira em torno de seu filho querido. O poeta Ferreira Gullar completa 80 anos de vida. Hoje. o nosso portal festeja o nascimento de um dos mais ilustres filhos da literatura e da poesia brasileira.

Ferreira Gullar é um poeta cuja linguagem jamais poderá ser aprisionada. Sua obra é marcada pela temática social -  ele é um homem diretamente relacionado com o seu tempo – autodidata, subverteu a linguagem destroçando o verbo para reencontrar a fala brasileira, o gesto humano no papel entre símbolos gráficos.

Menino, ainda, lá pelos anos 40, descobriu a língua brasileira, a força da poesia entrincheirada entre o Bacanga e o Anil – rios de sua infância – a leitura dos parnasianos e a ira dos garotos atirando pedras contra a sua fortaleza – a casa de seus pais na rua do Veado em São Luís do Maranhão – de onde sairia, sem saber, do anonimato a que todos os seus amigos da Camboa estariam predestinados. Ali começava uma saga que culminaria na realização do Poema Sujo, tido como a maior obra da literatura mundial do século XX.

Gullar venceu a ira dos colegas de molecagem, que voltaram, muitas vezes, atirando pedras e insistindo, mas porque entenderam que, do amigo Zeca, nascia o poeta Ferreira Gullar – não se tratava mais do colega José Ribamar Ferreira, filho do quitandeiro Newton Ferreira e da Dona Zizi – artista plástica autodidata que não chegou a desenvolver seus talentos. A poesia que o havia assaltado por amor à… mas,  como era mesmo o nome dela? E pela Gramática (ou por um deslize na Gramática).

A verdade é que o menino Zeca virado poeta jamais abandonaria a molecagem, o quintal, o rio, a draga, a casa, a Camboa, a cidade… Tudo a ele se atracaria para formar o amálgama da sua poesia, sua lírica nascida da lama do mangue lá na Areinha e no Genipapeiro. Dessa matéria-vida nascia o seu lirismo – a poesia com seus quintais, talheres, coitos, cofos, galos, mijo e suor…

Assim, Ferreira Gullar escreveria uma nova poesia, brasileira, nordestina, doida, sofrida, autêntica na alegria e na dor – como é o nosso povo. Trouxe no seu prumo noções das correntes mais viscerais: Drummond de Andrade, Murilo Mendes Campos e João Cabral…

São mais de 60 anos de uma militância singular e de uma luta armada em prol da poesia e da cultura brasileira. Em 1947 iniciava sua trajetória literária o primeiro livro UM POUCO ACIMA DO CHÂO (mas não oficialmente):

SANCHO E DOM QUIXOTE

- CAVALEIRO QUE LOUCURA TE FAZ CORRER TANTO ASSIM?

- CORRO ATRÁS DE VENTURA QUE VELOZ CORRE DE MIM!

- LOUCO, APENAS O AZEDUME DA DOR

ENCONTRARÁS NA SORTE

QUE A VENTURA DA VIDA SE RESUME

NA PAZ ETERNA DA MORTE!

- CHAMAR-ME DE LOUCO OUSAS?

LOUCOS SOMOS TODOS EM SUMA!

UNS, LOUCOS POR MUITAS COISAS,

OUTROS POOR COISA NENHUMA!

E O LOUCO SAIU A TROTE,

EM SEU CORCEL DE ILUSÃO…

ERA UM NOVO DOM QUIXOTE

DE NOVO SONHANDO EM VÃO!

(Ferreira Gullar, 1947)

O poeta considera seu batismo de fogo o livro A LUTA CORPORAL, de 1954. Só esse livro o inscreveria definitivamente no contexto mais exuberante da literatura brasileira.

Mas esse era o início para Gullar, que prosseguiria contribuindo não só como poeta mas como ensaísta e crítico de arte. Ele se destaca por sua reflexão teórica, com especial atenção às artes plásticas.

O conjunto de sua obra é variado entre a ficção, ensaios, crônicas, peças teatrais e televisão. Transitou no jornalismo, fez traduções de autores como La Fontaine, entre outros. Mas seu forte mesmo foi militar na resistência à ditadura militar nos anos 60 o que lhe levou ao exílio entre 1971 e 1977 o que lhe valeu a maior obra da nossa literatura – o Poema Sujo – em 1976 trazido em fita k7 para o Brasil por Vinícius de Moraes que o havia visitado  em seu exílio na Argentina.

Em Ferreira Gullar uma parte delira (o poeta), a outra pondera (o crítico de artes plásticas). Assim é o autor de NA VERTIGEM DO DIA (1980). Muitos intelectuais, professores de Literatura e Filosofia se especializaram em Ferreira Gullar, como é o caso de Wilson Coutinho ( jornalista, crítico de artes plásticas, mestre em Filosofia) e Alcides Villaça, Doutor em Literatura Brasileira.

Gullar tem inúmeros amigos exilados como Dias Gomes, Moacir Félix, o artista plástico Antônio Henrique do Amaral, Alfredo Bosi, etc. Mas o fôlego do poeta é admirável, depois de todos esses anos de poesia, de luta visceral pela nossa identidade como nação, ele não se mostra cansado, pelo contrário, jamais abandona essa guerra entre a vertigem e a linguagem apesar de tê-la ganho pela apreensão de sua tradução. Hoje, como no tempo de A LUTA CORPORAL,  é o mesmo poeta de 7 fôlegos, 7 vidas que ressurgem, uma após a outra, ROSA APÒS OS TERREMOTOS sempre disposto a viver de novo apesar da dor de saber da morte.

PARABÉNS, GULLAR: OS GUERREIROS CONTINUAM VIVOS!!!!!

Já foi dito praticamente tudo sobre a obra de Ferreira Gullar: sua técnica, seus momentos e movimentos e sua experimentação com a linguagem.

Do menino Zeca, que brincava na Praia do Caju com os amigos Esmagado e Espírito, ao poeta bissexto exilado e amado, praticamente tudo foi dito. Do Concreto ao Neoconcreto, da Literatura de Cordel ao Teatro Popular, do revolucionário presidente do CPC da UNE, ao poeta engajado nos movimentos populares dos anos 60, do ensaísta teórico ao crítico de arte, do tradutor e poeta que subverteu a poesia (sua subversão dentro da poesia, por causa dela e por ela). Enfim, acabaríamos sendo redundantes…

Por isso, nós, familiares do poeta, contemporâneos e participantes de sua lírica, ao homenageá-lo pelos seus 80 anos de vida, pensamos no seu reencontro com a sua cidade onde, como ele mesmo falou, estão toda a sua poesia, sua voz, sua luz, seus perfumes…  homenagem que se estende aos meus avós maternos Newton Ferreira e Alzira Gullar e à tia Bizuza, que do sono da terra certamente fizeram brotar a árvore da poesia em nossos corações.

O POETA E A CIDADE

O POETA E A CIDADE

A CIDADE E O POETA

O POETA NA CIDADE

A CIDADE NO POETA

A CIDADE E O POETA REINVENTAM RIMAS

TROCAM RIMAS

SE ENCONTRAM ENTRE RIMAS

UM GOZO DE FOGO

UM FOGO NO GOZO

O NOTURNO DO AMARELO VIRADO NOITE

NA CIDADE QUE O POETA CARREGA COMO UM SEGUNDO CORPO

UMA SEGUNDA ALMA

- CARAPAÇA DE VÍSCERAS E SONHOS

CANTIGAS DE NETUNO NO PÚS DOS GASES

VISÕES ENTRE LILÁSES NAS CORES DO BACANGA SE

ENTREGANDO NA BAÍA DE SÃO MARCOS

E SE ESFREGANDO NO ANIL

O POETA E A CIDADE: UM DOCE ARDIL

A CIDADE E O MENINO QUE UM DIA VIU CERTO AVIÃO

FOTOGRAFAR A SUA GEOGRAFIA HOJE SE ABRAÇAM E VOLTAM NO TEMPO

E NA PRAIA DO GENIPAPEIRO O FRANZINO MENINO ZECA AINDA BRINCA

A TABA TIMBIRA ESTÁ EM FESTA.

OS GUERREIROS CONTINUAM VIVOS,

PARABÉNS POETA

(Ângela Gullar)

13 comentários »

  • Patrícia Garcia disse:

    Querida Ângela,

    Que prazer ler essa matéria!

    Que homenagem linda e merecida!

    Ao Ferreira Gullar

    Meus parabéns!!! Tudo de maravilhoso para este poeta que nos traz tanto orgulho!!!!!!!

    Sou muito fã de vocês!

    Beijos

  • Lunna disse:

    Eu tenho um enorme carinho pela poesia do Ferreira Gullar porque em algum momento a gente fica em silêncio e é bom saber que alguém em algum lugar da voz para tudo que não é barulho na nossa alma. É justamente assim que eu vejo Gullar. Quanto a pessoa, sei pouco, mas julgo ser o bastante e acho que poetas não envelhecem e tão pouco commpletam anos, eles flutuam por cima de todas as coisas reais ou irreias, por assim dizer: humanas.
    Bacio

  • Cesinha disse:

    Querida Angela :-)

    já tinha saudade dos seus textos :-) , e chegou num dia especial e com uma homenagem justa ao Mestre que todos dias nos ensina, nos inspira quer na Poesia como na vida, como lutador de valores!

    Parabéns ao Mestre, que hoje tenha um dia muito feliz junto dos seus, e desejo que a vida dele seja longa e continue todos dias a ensinar-nos a viver e a crescer :-) !

    Beijo Angela e obrigado por esta linda homenagem e por nos relembrar sempre a Grande obra do Mestre!

  • Taty disse:

    Ângela querida,

    Que alegria ler seus escritos sempre por aqui… Aprecio muito o modo como você trata de história, de literatura e, principalmente, de ilustres nomes como o do nosso grande mestre!!!

    Realmente é uma honra poder falar com tanta propriedade de um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Minha admiração por ele é imensa, nem cabe em palavras!

    Parabéns pela excelente explanação e pelo belíssimo poema!

    Adoro você e amo ler seus textos!

    Um beijo grande!

  • Carmen Eugenio disse:

    Querida Angela!

    Que texto lindo, que homenagem maravilhosa!

    Que benção ter em nossa literatura a obra edificante de Ferreira Gullar !!

    Parabéns Poeta!!

  • Luis Lima disse:

    Salve, salve o grande mestre Ferreira Gullar…

    Toda homenagem agora e sempre, belo texto e
    poesias.

    Bjo. no coração minha amiga Angela.

    Arrumador de palavras.

  • Fabio Luis disse:

    Querida Angela,

    Muito linda a sua homenagem ao mestre Ferreira Gullar!

    Adorei conhecer um pouco mais a respeito da vida desse grande escritor.

    A sua matéria e a poesia ficaram perfeita, meus parabéns!

    Abraços

  • Sandra Cajado (author) disse:

    Querida ângela…

    Não é atoa que suas palavras versam no coração das pessoas afinal também temos um berço poético aqui.

    A herança e a genética se mesclaram no seu sangue.

    Carregar um legado de arte poética não é pra qualquer um,somente aqueles que tem o dom são capazes de externar emoções aos que ouvem e aos que lêem.

    Parabéns pelo post fenomenal.

    Estava com saudades imensas viu menina rs.

    Viva o mestre Ferreira Gullar!!!

    80 anos de poesia viva.

    Conhecê-lo foi uma dádiva e a troca de informações foi incrível.

    O maranhão foi representado pelas artes plásticas nesse ano tão importante que é as bodas desse mestre da poesia.

    Beijos.

  • Lucia Helena disse:

    quer houvesse
    ou não
    (como agora)
    alguém para vê-los
    e então me digo
    se o mundo dura tanto
    e eu tão pouco
    importa pouco
    se ele não for eterno

    “RELATIVA ETERNIDADE” é apenas um aperitivo no novo livro, EM ALGUMA PARTE ALGUMA do nosso querido tio. Ele merece todas as homenagens emuito mais. Lindo texto, como sempre. Longa vida ao poeta! Lu

  • Lucia Helena disse:

    O poema acima foi partido. Reenvio amensagem

    Cruzo a rua e vejo
    sobre a montanha
    que se ergue no horizonte
    para além da Lagoa
    nuvens matinais
    iluminadas
    contra um céu muito azul
    como na primeira manhã do mundo
    (ainda que
    em todos os dias doano
    quando faz sol
    essa festa matinal se tenha repetido
    por séculos)

    mas pouco importa:
    é hoje manhã pela primeira vez
    ainda que
    antes de terem aqui chegado os portugueses
    já ali estivessem a montanha
    o céu azul
    e as nuvens a se esgarçarem
    quer houvesse
    ou não
    (como agora)
    alguém para vê-los
    e então me digo
    se o mundo dura tanto
    e eu tão pouco
    importa pouco
    se ele não for eterno

    “RELATIVA ETERNIDADE” é apenas um aperitivo no novo livro, EM ALGUMAPARTE ALGUMA do nosso querido tio. Ele merece todas as homenagens emuito mais. Longa vida ao poeta! Lu

  • Rafa Cajado disse:

    Salve salve a poesia Viva!

    Grande mestre Ferreira Gullar o mito existente e real.

    Beijo grande minha amiga ângela.

    O Texto tá incrível.

    Parabéns.

    Rafa.

  • Hélia disse:

    Querida Angela…

    Quando, lá pelos meus 11 anos de idade, fui apresentada e me senti apaixonada pela poesia de Ferreira Gullar, o que mais me encantava era esse ar de liberdade que ele exalava por todos os poros poéticos…

    A partir daí não teve mais jeito, virou paixão eterna…

    Li seu texto com um nó na garganta e uma emoção enorme em mim…

    Ler sobre ele, dito por alguém que o conhece bem… Vê-lo em fotos familiares… que coisa mais linda…

    Parabéns pelo texto, querida…

    E parabéns ao nosso queridíssimo Ferreira Gullar, por tudo, sempre!!

    Beijos!!

  • Suzana Martins disse:

    Ângela querida, parabéns pela maravilha de texto!!!!

    O nosso querido poeta merece todas as homenagens possíveis, e você como ninguém soube fazer isso.

    Ferreira Gullar é essa poesia viva que tive a oportunidade de conhecer, de abraçar e de conversar. Alguém que tem poesia no olhar, que tem sonhos realizados e muitos que ainda estão por vir…

    Linda e maravilhosa homenagem em comemoração ao aniversário desse grande e maravilhoso poeta!!

    parabéns ao Gullar e parabéns a você, Angela!!!

    Beijos

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